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29 novembro 2010

Retratos

Começaram a passar as estações sobre aqueles cabelos brancos. Ele, com os seus olhos azuis olhava o mundo, na solidão das montanhas e vales, nunca parou se pensar e sonhar, a rever com seus gestos todas suas trajetórias. E lá estava ele, onde uma refeição era servida, onde se faziam-se as pausas e servia-se o pão.

Via suas mão, enquanto gesticulava e contava suas histórias, e eram grandes, gastas, nodosas, como as de um homem que arou sua terra desde menino. A pele e o corpo vincado com a ternura de seu imenso coração.

Desvencilhava essa sua outra e bela natureza, está que tentava esconder, porque dizia tudo com o sofrimento de alma, carregado de incertezas, pronto a ver tudo com o seu olhar de quem dá tudo de si, e ficava como se não tivesse feito nada, descontente, desiludido.

O sol pairava sobre o seu lamento, e da janela onde andarilhas andorinhas vagavam, corriam e se aquietavam, nesse fragor de uma manha que renasce, cheirando a café e onde viajamos como se o sonho continuasse.

Ele ao pé da longa escadaria, entre velhas casas; onde as montanhas em volta marcaram seu retrato, com as marcas do tempo nos telhados , ele descia e se aprumava, lento, sem pressa para se encostar na parede onde ele disse ter assentado cada tijolo; ascendia o seu cachimbo e ficava.

Não se via ninguém , somente as pombas arrulhando o tempo e o espaço.

E, lá estava ele sentado na sua cadeira, nesta posição legítima de ter vivido o seu tempo, na vasta atmosfera dos seus pensamentos.

Olhei novamente do alto da janela onde o sol batia sobre aqueles cabelos brancos, e onde ele está vivo agora, bem pertinho, e onde habita o apito do trem e o cheiro do alecrim, feliz de quem pode reencontrar o fio da memória na sua vasta poesia de viver, onde agora, neste silêncio eu escuto.





Ao meu pai, falecido dia 25 de novembro de 2010


Ju Gioli




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