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12 janeiro 2012

Ano Novo


As memórias


Acabei de abrir o meu diário, e como sempre me deparo com uma ilustração que coloco na primeira página:-  uma imagem que para mim é indispensável para começar o ano. Uma ilustração de uma pintura de Bonnard, que graças a essa possibilidade da internet, tornou-se tarefa fácil. Tenho-a como um mascote, como alguns que  carregam seus objetos de preferência.  Esta em especial sempre me aponta algum caminho.


Quando conheci o pintor PierreBonnard (1867-1947),  pintor  francês,   que pertenceu ao movimento Nabis,  do grupo pós-impressionista, lendo e estudando arte,  foi  uma daquelas emoções que todo ser apaixonado senti  ao descobrir o seu amor à primeira vista. Ele é um dos pintores desta fase , que ainda mais gosto. E, se tivesse que incluir, sem piscar, um trabalho impressionista nas paredes da minha casa, seria o dele. Na realidade gostaria de ter todos, grande pretensão a minha.   Quando estou vendo alguma exposição, e consta algum trabalho de Bonnard,  sinto que o dia está ganho. Meu olhar se abre para ver toda aquela atsmosfera de luz e cor, de perder o fôlego de tanta beleza.


Sem dúvida, amo esse pintor, que para mim é um gênio da pintura intimista. Além das cores e dos temas, sua alma e amor pela pintura me emocionam. Ele pintava sua família, mulher e filhas, em total intimidade. E que outro pintor trouxe essa possibilidade de beleza?  Que soube ver com seu olhar amoroso, uma simples cena, a dimensão da cor em arco-íris, dando a paisagem os seus mil tons de pinceladas fluídas;  uma janela se transforma em mar, uma mesa em catedral,  há luz e sombra nos ladrilhos velhos e brancos de um banheiro. Tudo era este cenário, que ele sabia como refletir no corpo inteiro de suas pinturas, sua alma apaixonada.


Um pintor em estado puro, quase um deslumbramento infantil. Seu jardim era sua casa: as mesas eram festas, as  toalhas, os vasos, apenas complementos desta alegria. Seus personagens um domingo de sol radiante na ponta de seu pincel.


Gosto de todas as suas pinturas, e se pudesse ter todas elas, como já disse, não excitaria um minuto. E, há uma em especial, que quando olho, sempre e sempre, lembro da minha infância. Destas preferências que não se explica, como o ser que se escolhe para amar. A cena  de uma tarde, onde os tons de vermelho –alaranjado está impregnado em todo quadro, e uma menina olha para dentro, talvez brincando com o seu gato sentado numa poltrona, e me faz lembrar dessas tardes de verão, eu com o meu cão, brincando no quintal, e que vai até a janela, e se pendura no parapeito, como equilibrista,  esperando o bolo assando no forno para tomar o seu lanche .


Sinto o odor desse ar de festa, toda vez que vejo e revejo essa ilustração. Porque cada vez que olho é sempre a primeira vez. E, as lembranças... porque vivemos destas memórias, elas nos fortalecem. Elas nos proporcionam um sentido de identidade,  arrastando dentro de nós  uma estranha felicidade, que sabemos existir somente dentro de nós, com a singularidade de uma verdade única, intransferível. Sempre como um clima, um sentimento, um ar que se respira desses instantes e permanecem eternos, e duram o que dura nos ecos deste existir.  E, esta felicidade que ainda ressoa, e que de vez em quando me vem – continua magicamente vindo quando me detenho sobre ela.   


Sei que é um lugar de estranhamento, que não pode ser nomeado, eu não consigo nomear, mas sentir, porque cada vez que olho é sempre a primeira vez, e deste olhar surgem novas inquietações.


Estou feliz. Penso: descubro essa relação incompreensível entre pintura e emoção, uma estranha conexão entre o real e o imaginário. Olho para essa tela, que acabei de colar no meu caderno de ano novo, porque sempre a colo na primeira página,  e estou ali e não quero perder a felicidade que sinto ao lembrar .  E, por  isso escrevo, talvez para recuperar esta sensação no ar, de uma pintura que me pertence sem a ter, e que viaja comigo.





Adiciono um site para ver imagens deste pintor:
Pierre Bonnard (1867-1947) pintor francês do movimento Nabis, pós-impressionista






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