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25 março 2012
28 fevereiro 2012
21 fevereiro 2012
19 fevereiro 2012
Poesia
Arte Poética
“A Poesia não me pede
propriamente uma especialização, pois a sua arte é uma arte do ser. Também não
é tempo ou trabalho o que a poesia me
pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética,
nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais
funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que
eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque
da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui como uma túnica sem costura.
Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça.
Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta.
Pois a poesia é a minha
explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha
participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o
poema não fala de ma vida real, mas sim duma vida concreta: ângulo da janela,
ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos
rostos, silêncios, distância e brilho das estrelas, respiração da noite,
perfume de tília e do orégão.
É esta relação com o universo que
define o poema com o poema, como obra de criação poética. Quando há apenas
relação com uma matéria há apenas artesanato.
É o artesanato que pede especialização,
ciência, trabalho, tempo e uma estética. Todo poeta, todo artista é artesão de
uma linguagem. Mas o artesanato das artes poéticas não nasce de si mesmo, isto
é, da relação com uma matéria, como nas artes artesanais.
O artesanato das artes
poética nasce da própria poesia, à qual
está consubstancialmente unido. Se um poeta diz: “obscuro”, “amplo”, “ barco”, “pedra”, é porque estas
palavras nomeiam a sua visão do mundo, a sua ligação com as coisas. Não foram
escolhidas esteticamente pela sua beleza, foram escolhidas pela sua realidade,
pela sua necessidade, pelo seu poder poético de estabelecer uma aliança. E é da
obstinação sem tréguas que a poesia exige que nasce o “obstinado rigor” do
poema.
O verso é denso, tenso como um
arco, exatamente dito, porque os dias foram densos, tensos como arcos,
exactamente vividos.
O equilíbrio das palavras entre
si é o equilíbrio dos momentos entre si. E no quadro sensível do poema vejo
para onde vou, reconheço o meu caminho, o meu reino, a minha vida.”
Sophia de Mello Brekner Andresen.
(in: Geografia. Lisboa, Salamandra, 1990)
tela: Juracy Giovagnoli dos Santos
acrílico s/tela, 120cmx140cm
30 janeiro 2012
29 janeiro 2012
24 janeiro 2012
12 janeiro 2012
Ano Novo
As memórias
Acabei de abrir o meu diário, e
como sempre me deparo com uma ilustração que coloco na primeira página:- uma imagem
que para mim é indispensável para começar o ano. Uma ilustração de uma pintura
de Bonnard, que graças a essa possibilidade da internet, tornou-se tarefa
fácil. Tenho-a como um mascote, como alguns que carregam seus objetos de preferência. Esta em especial
sempre me aponta algum caminho.
Quando conheci o pintor PierreBonnard (1867-1947), pintor francês, que
pertenceu ao movimento Nabis, do grupo
pós-impressionista, lendo e estudando arte, foi uma
daquelas emoções que todo ser apaixonado senti
ao descobrir o seu amor à primeira vista. Ele é um dos pintores desta
fase , que ainda mais gosto. E, se tivesse que incluir, sem piscar, um trabalho
impressionista nas paredes da minha casa, seria o dele. Na realidade gostaria
de ter todos, grande pretensão a minha. Quando estou vendo alguma exposição, e consta
algum trabalho de Bonnard, sinto que o
dia está ganho. Meu olhar se abre para ver toda aquela atsmosfera de luz e cor,
de perder o fôlego de tanta beleza.
Sem dúvida, amo esse pintor, que
para mim é um gênio da pintura intimista. Além das cores e dos temas, sua alma
e amor pela pintura me emocionam. Ele pintava sua família, mulher e filhas, em
total intimidade. E que outro pintor trouxe essa possibilidade de beleza? Que soube ver com seu olhar amoroso, uma
simples cena, a dimensão da cor em arco-íris, dando a paisagem os seus mil tons
de pinceladas fluídas; uma janela se
transforma em mar, uma mesa em catedral,
há luz e sombra nos ladrilhos velhos e brancos de um banheiro. Tudo era
este cenário, que ele sabia como refletir no corpo inteiro de suas pinturas,
sua alma apaixonada.
Um pintor em estado puro, quase
um deslumbramento infantil. Seu jardim era sua casa: as mesas eram festas,
as toalhas, os vasos, apenas
complementos desta alegria. Seus personagens um domingo de sol radiante na
ponta de seu pincel.
Gosto de todas as suas pinturas, e
se pudesse ter todas elas, como já disse, não excitaria um minuto. E, há uma em
especial, que quando olho, sempre e sempre, lembro da minha infância. Destas
preferências que não se explica, como o ser que se escolhe para amar. A cena de uma tarde, onde os tons de vermelho –alaranjado
está impregnado em todo quadro, e uma menina olha para dentro, talvez brincando
com o seu gato sentado numa poltrona, e me faz lembrar dessas tardes de verão,
eu com o meu cão, brincando no quintal, e que vai até a janela, e se pendura no
parapeito, como equilibrista, esperando
o bolo assando no forno para tomar o seu lanche .
Sinto o odor desse ar de festa,
toda vez que vejo e revejo essa ilustração. Porque cada vez que olho é sempre a
primeira vez. E, as lembranças... porque vivemos destas memórias, elas nos
fortalecem. Elas nos proporcionam um sentido de identidade, arrastando dentro de nós uma estranha felicidade, que sabemos existir
somente dentro de nós, com a singularidade de uma verdade única,
intransferível. Sempre como um clima, um sentimento, um ar que se respira
desses instantes e permanecem eternos, e duram o que dura nos ecos deste
existir. E, esta felicidade que ainda
ressoa, e que de vez em quando me vem – continua magicamente vindo quando me
detenho sobre ela.
Sei que é um lugar de
estranhamento, que não pode ser nomeado, eu não consigo nomear, mas sentir,
porque cada vez que olho é sempre a primeira vez, e deste olhar surgem novas
inquietações.
Estou feliz. Penso: descubro essa
relação incompreensível entre pintura e emoção, uma estranha conexão entre o real
e o imaginário. Olho para essa tela, que acabei de colar no meu caderno de ano novo,
porque sempre a colo na primeira página, e estou ali e não quero perder a felicidade
que sinto ao lembrar . E, por isso escrevo, talvez para recuperar esta
sensação no ar, de uma pintura que me pertence sem a ter, e que viaja comigo.
Adiciono um site para ver imagens deste pintor:
08 janeiro 2012
26 novembro 2011
02 outubro 2011
15 setembro 2011
31 agosto 2011
29 agosto 2011
22 agosto 2011
02 agosto 2011
31 julho 2011
29 julho 2011
28 julho 2011
26 julho 2011
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