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11 janeiro 2013

10-1-2013 17_45_27

  Diário mínimo

Hoje, a frase do poeta  Guimarães Rosa veio acompanhar meus pensamentos: " Viver é muito perigoso", uma frase simples e reveladora, que esbarra com pleno e certeiro significado,  nas condições de existência desta  nossa contemporaneidade: -  época de intranqüilidade , de infindos distúrbios existenciais, de valores contraditórios , se assim podemos classificar esse tempo que se apresenta.

Viver  é mesmo perigoso. A cada  página do jornal, esfacelados de tragédias,  vemos a boca escancarada desse tempo, onde estamos nos acostumando a ver e ouvir, com rapidez e sem resistência: -a violência, desemprego, fome, massacres, corrupções e morte,  e tantas e tantas coisas mais.
Onde estamos????
Não posso ficar indiferente, ao desalento deste mundo. 

E,  nesta manhã , tenho o relato triste e melancólico da minha empregada, enquanto tomo café. Foi assaltada em sua casa, o dinheiro do aluguel desapareceu, seu filho desempregado deu uma surra na namorada, o marido a abandonou, sem meias palavras com uma vizinha.  Ela Pediu um vale para cobrir o mês de aluguel, desesperada e com  dor demais em seus olhos. 

Assim caminhamos, assim caminha a humanidade. Caminha amedrontada, sem saída .
Ainda estou segurando a xícara do café,  e sentindo um cansaço, um cansaço imenso de um grande sertão com diminutas veredas. E sou assim tomada por essa angústia, que se sabe  imensa  e se estende pela mesa, descobrindo gota a gota esse viver que é difícil.

Juracy




23 dezembro 2012

A memória Inconsolável








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Hiroshima, meu amor

 

Direção:  Alain Resnais
Filme Franco-japonês de 1959
Roteiro:  Marguerite Duras

 

 

A memória Inconsolável

 

 

Um filme que além de introduzir inovação e perspectiva inusitadas,   ao expor novas maneiras de fazer (forma ) e de ver (significado) no cinema e na vida, nos fala desta memória inconsolável,  na  reflexão sobre o tempo e as lembranças.

 

Baseado em texto do nouveau Roman francês de Marquerite Duras, pleno de nuances e aspectos que abrangem desde o fio temático: - o bombardeio atômico de Hiroshima, a presença dos personagens  que estão revendo o passado, nesta unidade de tempo, mesclado de memórias e cenas reais.

 

É um filme (de e) sobre a memória e o tempo, tratado de maneira visceral e contemporânea.  Falando de um relacionamento entre um homem e uma mulher, na possibilidade de convivência, solidificando os liames entre dois seres humanos, e o que os podem unir como premissa de um encontro real e significativo. E, como notas musicais, quando submetidos ao toque e pressão  dos dedos do pianista,  que nos graus desta variação e sutileza, revelam suas partituras únicas e seus tons, e nós como expectadores,  vamos saboreando, sem saber ao certo o que transmitem, ora vagos e silenciosos,  ora intensos e dramáticos.

Todos os contatos, expressões, diálogos, atitudes e posturas, pautam-se por estas sutis tonalidades e variações, e como acorde musical, na sua leveza, flexibilidade e imponderabilidade, que à semelhança do pensamento, dos sentimentos e das emoções, não se concretizam, mas revelam em outro estado de ser, porque assim a memória se faz.

Os tempos amorosos dos personagens revelam-se através dessas sinfonias, onde a junção passado e presente interagem, incorporam-se no agora dos sentimentos, onde as perturbações psíquicas pretéritas são retomadas,  neste lugar da memória onde o processamento poético permeia-se de indagações e angustias do vivido.

 

A  primeira frase  que se fala no filme: “ Tu n’as rien vu, à Hiroshima”  (Você não viu nada em Hiroshima), depois de minutos de imagens de um desenho abstrato de dois corpos entrelaçados, por fusões e sublinhado por um tema musical, os duplos sentidos entre frases e imagens se revelam. E nós, o que vemos em Hiroshima?

 

“Como você, lutei para manter uma memória inconsolável”, diz a voz feminina. E depois de um vazio, continua: “ E como você, eu esqueci”.

 

Memória e esquecimento são a matéria que desfilam em nosso campo visual.

“L´oubli cmmencera por l’oeil” ( O esquecimento comecará pelo olho), nesse  processo interior, temos o processo criativo:  imaginação e esquecimento, memória e realidade;  temas que se mesclam.

 

Tudo na película nasce do diálogo destes amantes, e a linha dramática se desenvolve através da memória e recordação. Deste modo, “a madrugada de amor em Hiroshima” é inseparável da” madrugada de morte em Never”,  no que fica desta vivência  entre espaço e tempo, que ora se dissolvem ou ora se conectam.

 

O filme nos faz refletir sobre a sensação imprecisa da existência, em termos de desejo, sensação e vivência, do mundo real e do mundo dos sonhos e desejos; um mundo que se forma por contradições, do passado e do presente, do concreto e abstrato.

 

Onde o tempo da memória se faz? Esse é ao meu ver a indagação do filme. Onde o tempo, que não é busca racional, mas poética, nas livres-associações produzidas pelas sensações, lembranças, por um inconsciente que se manifesta e perfila o real. Somos a construção destes paradigmas. Nas falas que se encadeiam como versos de um poema, no ritmo de um poema. Não é o entendimento que interessa, mas a expressão que fica; uma parte desse tempo de busca que se instala e se dissolve, onde nada se explica, mas algo se constrói  nas suas entrelinhas.

 

 

 

Resenha: Uma atriz vinda de Paris para trabalhar numa fita em Hiroshima, tem uma aventura amorosa e revive, através do amante japonês, a trágica experiência que tivera durante a ocupação em Never, na França, com um amante alemão.

 

 

 

Juracy
 
 
 
 
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17 dezembro 2012

Sob as imagens....

Francis Bacon



Pintor anglo-irlândes (1909-1992)











Francis Bacon admite que o artista está sempre atado a realidade, onde alerta: o tema, a realidade é sempre uma isca, tem-se de começar a partir de um tema, de um ponto, que gradualmente irá evaporar-se e deixar aquele resíduo que chamamos de realidade, e que talvez vagamente tenha a ver com o que nos serviu de ponto de partida"




O que temos diante do nós, daquilo que o artista transmite é sempre outra coisa, que já não é a realidade, nem a evocação, mas im o que o artista conseguiu fazer dela. Que é sempre alguma coisa (que toma o lugar da verdade) mas que não é a verdade que se afirma na narração desta construção.

A pintura desestabiliza, porque nos tira do lugar conhecido. 

A realidade reinventada, desmontada no processo, para dar conta daquilo que se quiz dizer.

Onde as certezas vacilam - resiste na busca - na necessidade de se fazer imagem.

Uma imagem que não habita, onde ela é tecida no ato anterior ao ato.









  

20 novembro 2012

Cerejeiras em flor - filme da semana


Resenha:

Há filmes marcantes e outros que passam. A maioria deles são feitos para entreter, mas alguns são especiais, responsáveis por tocar, além dos olhos, a alma e o coração. Cerejeiras em flor é este filme que nos sensibiliza com sua poética.
A trama começa de forma dramática: - Trudi ( a magnífica Hannelore Elsner ) recebe a trágica noticia que seu marido Rudi ( Elmar Wepper), tem pouco tempo de vida. Aconselhada pelos médicos, ela o convence a sair da Bavária, vilarejo onde moram , para tirar férias e visitar os filhos em Berlim onde moram.  O marido ,  apesar de sistemático e de poucas palavras, trabalhando num emprego burocrático e que não abre mão  do seu  cotidiano e rotina é convencido por ela a viajar. 
Trudi omite dele o trágico destino e partem inicialmente para Berlim, reencontrando dois de seus filhos, sendo o caçula, morador no Japão, não poderia estar presente. Ambos, pais e filhos se vêem na constrangedora situação embaraçosa desse encontro, revelando o eterno conflito entre gerações ,e diante do tempo que extirpa as relações , tornando-se estranhos e diferentes em seus mundos.
Trudi e Rudi vão para a praia, também uma das paixões dela, e Trudi, a esposa, inesperadamente vem a falecer, deixando o marido Rudi  sozinho. 
Rudi volta para a Bavária, e revê os pertences de sua falecida, e descobre  que a vida toda ela  alimentou o sonho de conhecer o monte Fuji, no Japão, e assim recomeça sua jornada em reencontrar seu outro filho e em buscar o que sua mulher mais admirava: o butô. 
E,  no Japão , redescobre o prazer das pequenas coisas , com a ajuda de uma jovem dançarina de butô num cenário deslumbrante na primavera, época das cerejeiras.
O símbolo da flor de cerejeira nos remete a beleza do feminino  e simboliza o amor, a felicidade e renovação.  Flor de origem asiática, conhecida como "Sakura" é tida como a flor nacional do Japão, associada à efemeridade da existência humana e ao lema dos Samurais: viver o presente sem medo. E  entre os  temas relevante desta trajetória que o casal enfrenta , além da dor, cumplicidade e perdas,  que sem meias palavras nos comove com o tema da velhice solidão e morte,  temos a discussão sobre a finitude da vida e das várias armadilhas que criamos  para não aproveitarmos com toda a plenitude os relacionamentos e o amor que nasce nesta cumplicidade.

Juracy

01 agosto 2012

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