Colagem e grafite s/papel
Ju Gioli
@ Dis-cursos
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26 abril 2012
24 abril 2012
16 abril 2012
10 abril 2012
Alberto Giacometti
Há 15 dias
Há quinze dias tento fazer
paisagens. Passo todos os dias na frente do mesmo jardim, das mesmas árvores e
do mesmo fundo. Vi essa paisagem pela primeira vez pela manhã, o sol estava
brilhando, as árvores cobertas de flores, e no fundo, bem ao longe, montanhas
cobertas de neve. Era isso que eu queria pintar, mas desde então o céu está
menos claro, muitas vezes chove, não vejo mais as montanhas há quinze dias as
flores, as brancas e lilases, murcharam, e continuo minhas paisagens até a
madrugada.
Cada dia, vejo um pouco mais que
não estou vendo nada e não sei de que forma alguma como, e por meio de quê, eu
poderia colocar na tela algo daquilo que vejo. Qualquer esperança de restituir
a visão do primeiro dia desaparece, mas isso é-me bastante indiferente. Essa paisagem devia ser
apenas um começo, é isso que eu tenho o tempo inteiro sob os olhos na frente da
porta do meu atelier, vi muitas outras nos arredores que queria fazer também , uma eu até comecei um dia. Pensei que
poderia fazer toda uma série de paisagens, da manhã, da noite, algumas com
grandes conjuntos, outras com árvores, e outras ainda com o rio.
Mas eu não penso mais nisso, aquelas que estão na frente da
porta são me suficientes por meses, e ainda assim eu seria obrigado a me
limitar, primeiro a uma só parte dessa paisagem, e em seguida provavelmente a
uma só árvore, e no final, a apenas um galho. E quer eu faça a paisagem ou
flores num vaso, ou um vaso com flores ressecadas, ou somente o vaso, ou outros
objetos que estão na mesa, isso não tem mais nenhuma importância. Ou uma figura
no cômodo com os objetos que o cercam, e voltarei bem rápido ao mesmo assunto
que estou tentando pintar há anos, e as paisagens seriam uma vez mais adiadas
para mais tarde, ou, em todo caso, não vejo quando poderia ir mais longe do que
aquela que vejo pela minha janela ou na frente de minha porta.
Mas vejo todas aquelas que
gostaria de ter pintado, em torno de meu atelier em Paris, e depois o terreno
baldio de Malaloff, e os arredores de Paris, e de Dieppe e do cabo Ferrat, mas
também toda a paragem para Digne. E aqui logo depois da fronteira italiana.
Muitas vezes, à noite, vejo todas
as reproduções de paisagens que encontro nos livros que tenho aqui (é uma
escolha bastante limitada), para saber quais me chamam a atenção, ou me
interessam mais. Comparo-as e copio-as. Há aqui algumas reproduções dos
impressionistas, dos holandeses, flamengos primitivos, egípcios, um álbum de
paisagens chinesas, e é mais ou menos tudo.
Fica me a memória, nesta noite,
sobretudo as de Cézanne, as chinesas, as de Ruysdael e as de Van Eyck e as egípcias, o que
provavelmente ficaria na memória de mais ou menos todo mundo, pelo menos de
quase todos o pintores.
Eu me restrinjo, para acabar, a
dois detalhes de Van Eyck, a um relevo egípicio e a duas ou três paisagens
chinesas e as de Ruysdael. São essas que me parecem as que mais se assemelham,
sobretudo as de Van Eyck e o relevo egípcio, ou também uma cascata entre as
rochas chinesas. É quase incômodo falar de paisagem chinesas hoje, fala-se
muito delas, admira-se muito sua atmosfera, o espaço, a onda, elas parecem
sempre de referências duras e precisas como uma pedra, são essas três obras que
me chamam a atenção e que mais me interessam. Eu as copio e me parece que elas
têm alguma coisa, ou mesmo muitas coisas em comum.
São essas as paisagens em
pinturas que me vêm primeiramente à memória.
{...}
Giacometti, Alberto. Écrits. Paris: Hermann
Éditeurs, 2007, PP.375-377.
25 março 2012
28 fevereiro 2012
21 fevereiro 2012
19 fevereiro 2012
Poesia
Arte Poética
“A Poesia não me pede
propriamente uma especialização, pois a sua arte é uma arte do ser. Também não
é tempo ou trabalho o que a poesia me
pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética,
nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais
funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que
eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque
da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui como uma túnica sem costura.
Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça.
Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta.
Pois a poesia é a minha
explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha
participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o
poema não fala de ma vida real, mas sim duma vida concreta: ângulo da janela,
ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos
rostos, silêncios, distância e brilho das estrelas, respiração da noite,
perfume de tília e do orégão.
É esta relação com o universo que
define o poema com o poema, como obra de criação poética. Quando há apenas
relação com uma matéria há apenas artesanato.
É o artesanato que pede especialização,
ciência, trabalho, tempo e uma estética. Todo poeta, todo artista é artesão de
uma linguagem. Mas o artesanato das artes poéticas não nasce de si mesmo, isto
é, da relação com uma matéria, como nas artes artesanais.
O artesanato das artes
poética nasce da própria poesia, à qual
está consubstancialmente unido. Se um poeta diz: “obscuro”, “amplo”, “ barco”, “pedra”, é porque estas
palavras nomeiam a sua visão do mundo, a sua ligação com as coisas. Não foram
escolhidas esteticamente pela sua beleza, foram escolhidas pela sua realidade,
pela sua necessidade, pelo seu poder poético de estabelecer uma aliança. E é da
obstinação sem tréguas que a poesia exige que nasce o “obstinado rigor” do
poema.
O verso é denso, tenso como um
arco, exatamente dito, porque os dias foram densos, tensos como arcos,
exactamente vividos.
O equilíbrio das palavras entre
si é o equilíbrio dos momentos entre si. E no quadro sensível do poema vejo
para onde vou, reconheço o meu caminho, o meu reino, a minha vida.”
Sophia de Mello Brekner Andresen.
(in: Geografia. Lisboa, Salamandra, 1990)
tela: Juracy Giovagnoli dos Santos
acrílico s/tela, 120cmx140cm
30 janeiro 2012
29 janeiro 2012
24 janeiro 2012
12 janeiro 2012
Ano Novo
As memórias
Acabei de abrir o meu diário, e
como sempre me deparo com uma ilustração que coloco na primeira página:- uma imagem
que para mim é indispensável para começar o ano. Uma ilustração de uma pintura
de Bonnard, que graças a essa possibilidade da internet, tornou-se tarefa
fácil. Tenho-a como um mascote, como alguns que carregam seus objetos de preferência. Esta em especial
sempre me aponta algum caminho.
Quando conheci o pintor PierreBonnard (1867-1947), pintor francês, que
pertenceu ao movimento Nabis, do grupo
pós-impressionista, lendo e estudando arte, foi uma
daquelas emoções que todo ser apaixonado senti
ao descobrir o seu amor à primeira vista. Ele é um dos pintores desta
fase , que ainda mais gosto. E, se tivesse que incluir, sem piscar, um trabalho
impressionista nas paredes da minha casa, seria o dele. Na realidade gostaria
de ter todos, grande pretensão a minha. Quando estou vendo alguma exposição, e consta
algum trabalho de Bonnard, sinto que o
dia está ganho. Meu olhar se abre para ver toda aquela atsmosfera de luz e cor,
de perder o fôlego de tanta beleza.
Sem dúvida, amo esse pintor, que
para mim é um gênio da pintura intimista. Além das cores e dos temas, sua alma
e amor pela pintura me emocionam. Ele pintava sua família, mulher e filhas, em
total intimidade. E que outro pintor trouxe essa possibilidade de beleza? Que soube ver com seu olhar amoroso, uma
simples cena, a dimensão da cor em arco-íris, dando a paisagem os seus mil tons
de pinceladas fluídas; uma janela se
transforma em mar, uma mesa em catedral,
há luz e sombra nos ladrilhos velhos e brancos de um banheiro. Tudo era
este cenário, que ele sabia como refletir no corpo inteiro de suas pinturas,
sua alma apaixonada.
Um pintor em estado puro, quase
um deslumbramento infantil. Seu jardim era sua casa: as mesas eram festas,
as toalhas, os vasos, apenas
complementos desta alegria. Seus personagens um domingo de sol radiante na
ponta de seu pincel.
Gosto de todas as suas pinturas, e
se pudesse ter todas elas, como já disse, não excitaria um minuto. E, há uma em
especial, que quando olho, sempre e sempre, lembro da minha infância. Destas
preferências que não se explica, como o ser que se escolhe para amar. A cena de uma tarde, onde os tons de vermelho –alaranjado
está impregnado em todo quadro, e uma menina olha para dentro, talvez brincando
com o seu gato sentado numa poltrona, e me faz lembrar dessas tardes de verão,
eu com o meu cão, brincando no quintal, e que vai até a janela, e se pendura no
parapeito, como equilibrista, esperando
o bolo assando no forno para tomar o seu lanche .
Sinto o odor desse ar de festa,
toda vez que vejo e revejo essa ilustração. Porque cada vez que olho é sempre a
primeira vez. E, as lembranças... porque vivemos destas memórias, elas nos
fortalecem. Elas nos proporcionam um sentido de identidade, arrastando dentro de nós uma estranha felicidade, que sabemos existir
somente dentro de nós, com a singularidade de uma verdade única,
intransferível. Sempre como um clima, um sentimento, um ar que se respira
desses instantes e permanecem eternos, e duram o que dura nos ecos deste
existir. E, esta felicidade que ainda
ressoa, e que de vez em quando me vem – continua magicamente vindo quando me
detenho sobre ela.
Sei que é um lugar de
estranhamento, que não pode ser nomeado, eu não consigo nomear, mas sentir,
porque cada vez que olho é sempre a primeira vez, e deste olhar surgem novas
inquietações.
Estou feliz. Penso: descubro essa
relação incompreensível entre pintura e emoção, uma estranha conexão entre o real
e o imaginário. Olho para essa tela, que acabei de colar no meu caderno de ano novo,
porque sempre a colo na primeira página, e estou ali e não quero perder a felicidade
que sinto ao lembrar . E, por isso escrevo, talvez para recuperar esta
sensação no ar, de uma pintura que me pertence sem a ter, e que viaja comigo.
Adiciono um site para ver imagens deste pintor:
08 janeiro 2012
26 novembro 2011
02 outubro 2011
15 setembro 2011
31 agosto 2011
29 agosto 2011
22 agosto 2011
02 agosto 2011
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