As janelas
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22 julho 2012
20 julho 2012
15 julho 2012
09 julho 2012
20 junho 2012
01 maio 2012
Vírginia Woolf ao fim da tarde
"Assim como num dia de Verão as ondas se juntam, se levantam e caem; e o mundo inteiro parece estar a dizer «é só isto» cada vez com mais veemência, até que o próprio coração no interior do corpo deitado ao sol na praia diz também: é só isto. Não tornes a ter medo, diz o coração"
Mrs. Dalloway é o primeiro dos romances de Virginia Woolf que subverte a narrativa tradicional: tudo se passa apenas num dia, e por esta referência ao tempo em que a ação decorre, rompe com as convenções do romance tradicional, ao estabelecer as bases de uma nova estética da ficção, ao evitar a linearidade típica da prosa, inserindo o romance no movimento que, retrospectivamente, seria caracterizado como modernismo literário e cujo início pode ser situado na primeira década do século XX. Temos na Grã-Bretanha, além de Virginia, os nomes de James Joyce, na ficção, e T.S. Elliot, na poesia.
Tudo se passa num dia de junho de 1923, entre as 10 horas da manhã e a meia-noite. A I Grande Guerra terminou, o verão surge em Londres e Clarissa, prepara-se para dar uma das suas festas. Mas quando a noite se aproxima, o aparecimento de Peter Walsh, o seu primeiro amor regressado da Índia, vai atiçar o passado, trazendo-lhe à memória os sonhos de juventude e a querela que muitos anos antes a precipitou num casamento sem brilho. Uma mulher que amava a vida, mas que se sentia oprimida por uma sensação de perda emocional, de aperto da sua existência. De súbito, Clarissa tem consciência da força da vida.
Woolf expõe assim diferentes modos de sentir, evocando, mais que o espírito do tempo, o espírito da própria vida no olhar de cada personagem. Mas a singularidade da obra vem dessa espécie de sósia de Mrs. Dalloway, que é Septimus Warren Smith, enlouquecendo com o trauma da guerra e com quem Clarissa parece partilhar uma mesma consciência (assim, a escritora aproveita para acusar suas próprias angústias; uma espécie de auto-retrato). Septimus com as suas alucinações e esquizofrenia, delirando com um amigo que morreu em combate, é um importante contraponto a Clarissa: uma chaga aberta, a sua dor exposta ao mundo, o ressentimento, a sua ferida, a sua intimidade; ela esconde o seu silêncio, cobre-o com uma capa de falsa confiança, com festas. Ela lamenta o passado; encontra-se incerta acerca do presente; e teme o futuro, o assustadoramente pouco familiar, e iminente, processo de envelhecer.
Mas a obra também sugere que tal como as personagens, as pessoas tendem a adaptar-se às circunstâncias sociais, mesmo que isso não os faça feliz. Clarissa pretende que os seus convidados saiam de sua casa com a sensação de que viver vale a pena…ou não, e assim temos nossas descobertas.
Domingo ao fim da tarde , vejo Mrs Dalloway saltar das páginas do livro para uma sessão especial no A Última festa, (filme de 1997). Adaptação do romance pela actriz Eileen Atkins, Mrs. Dalloway reaparece com a irrepreensível técnica dramática de Vanessa Redgrave na interpretação da personagem principal. Pareceu-me que o filme, apesar de fazer certas escolhas ao nível do discurso, não é uma adaptação radical da obra da escritora. Embora ao utilizar certos recursos e introduzir certas mudanças, o filme permaneça fiel ao “espírito” do romance e consegue atualizar seus significados.
Mas a obra também sugere que tal como as personagens, as pessoas tendem a adaptar-se às circunstâncias sociais, mesmo que isso não os faça feliz. Clarissa pretende que os seus convidados saiam de sua casa com a sensação de que viver vale a pena…ou não, e assim temos nossas descobertas.
Domingo ao fim da tarde , vejo Mrs Dalloway saltar das páginas do livro para uma sessão especial no A Última festa, (filme de 1997). Adaptação do romance pela actriz Eileen Atkins, Mrs. Dalloway reaparece com a irrepreensível técnica dramática de Vanessa Redgrave na interpretação da personagem principal. Pareceu-me que o filme, apesar de fazer certas escolhas ao nível do discurso, não é uma adaptação radical da obra da escritora. Embora ao utilizar certos recursos e introduzir certas mudanças, o filme permaneça fiel ao “espírito” do romance e consegue atualizar seus significados.
Tal como em Ulisses de James Joyce, Mrs Dalloway decorre num único dia, que inicia às dez da manhã e prolonga-se até as três da madrugada seguinte, com uma marcação contínua e pontual aos toques do Big Ben. É um dia na vida da mulher de um desinteressante membro da câmara dos Comuns, uma encantadora senhora de cinquenta e dois anos, mas que como tantas outras, sobrecarregada por uma série inesgotável de tarefas. Podia passar-se em qualquer lugar, em 2012), uma mulher (ou um homem) preocupados com o que não tiveram coragem de fazer, com o que ficou para trás. Arrependimento? Falta de coragem? Falta de força anímica para ainda alterar o futuro? Clarissa Dalloway pode ser uma ou muitas mulheres, ou qualquer mulher que se cruze connosco. Foi ao fim da tarde, “quando as luzes de apagavam e acendia o coração”, que Clarissa, agora em tela (embora com anos de atraso [meu]), me convidou para a sua festa.
A festa de Mrs Dalloway é como todas as festas, um verdadeiro microcosmo social, onde as intrigas emocionais e existenciais se revelam.
Virginia Woolf esmiúça magistralmente a subtileza das reações e das angústias dos seres humanos artificialmente confinados dentro dos limites impostos por uma ocasião social. Drama romântico e melancólico, o livro e o filme oferecem-nos um estudo existencial sobre os efeitos inevitáveis – e o preço a pagar –pelas opções de vida.
26 abril 2012
24 abril 2012
16 abril 2012
10 abril 2012
Alberto Giacometti
Há 15 dias
Há quinze dias tento fazer
paisagens. Passo todos os dias na frente do mesmo jardim, das mesmas árvores e
do mesmo fundo. Vi essa paisagem pela primeira vez pela manhã, o sol estava
brilhando, as árvores cobertas de flores, e no fundo, bem ao longe, montanhas
cobertas de neve. Era isso que eu queria pintar, mas desde então o céu está
menos claro, muitas vezes chove, não vejo mais as montanhas há quinze dias as
flores, as brancas e lilases, murcharam, e continuo minhas paisagens até a
madrugada.
Cada dia, vejo um pouco mais que
não estou vendo nada e não sei de que forma alguma como, e por meio de quê, eu
poderia colocar na tela algo daquilo que vejo. Qualquer esperança de restituir
a visão do primeiro dia desaparece, mas isso é-me bastante indiferente. Essa paisagem devia ser
apenas um começo, é isso que eu tenho o tempo inteiro sob os olhos na frente da
porta do meu atelier, vi muitas outras nos arredores que queria fazer também , uma eu até comecei um dia. Pensei que
poderia fazer toda uma série de paisagens, da manhã, da noite, algumas com
grandes conjuntos, outras com árvores, e outras ainda com o rio.
Mas eu não penso mais nisso, aquelas que estão na frente da
porta são me suficientes por meses, e ainda assim eu seria obrigado a me
limitar, primeiro a uma só parte dessa paisagem, e em seguida provavelmente a
uma só árvore, e no final, a apenas um galho. E quer eu faça a paisagem ou
flores num vaso, ou um vaso com flores ressecadas, ou somente o vaso, ou outros
objetos que estão na mesa, isso não tem mais nenhuma importância. Ou uma figura
no cômodo com os objetos que o cercam, e voltarei bem rápido ao mesmo assunto
que estou tentando pintar há anos, e as paisagens seriam uma vez mais adiadas
para mais tarde, ou, em todo caso, não vejo quando poderia ir mais longe do que
aquela que vejo pela minha janela ou na frente de minha porta.
Mas vejo todas aquelas que
gostaria de ter pintado, em torno de meu atelier em Paris, e depois o terreno
baldio de Malaloff, e os arredores de Paris, e de Dieppe e do cabo Ferrat, mas
também toda a paragem para Digne. E aqui logo depois da fronteira italiana.
Muitas vezes, à noite, vejo todas
as reproduções de paisagens que encontro nos livros que tenho aqui (é uma
escolha bastante limitada), para saber quais me chamam a atenção, ou me
interessam mais. Comparo-as e copio-as. Há aqui algumas reproduções dos
impressionistas, dos holandeses, flamengos primitivos, egípcios, um álbum de
paisagens chinesas, e é mais ou menos tudo.
Fica me a memória, nesta noite,
sobretudo as de Cézanne, as chinesas, as de Ruysdael e as de Van Eyck e as egípcias, o que
provavelmente ficaria na memória de mais ou menos todo mundo, pelo menos de
quase todos o pintores.
Eu me restrinjo, para acabar, a
dois detalhes de Van Eyck, a um relevo egípicio e a duas ou três paisagens
chinesas e as de Ruysdael. São essas que me parecem as que mais se assemelham,
sobretudo as de Van Eyck e o relevo egípcio, ou também uma cascata entre as
rochas chinesas. É quase incômodo falar de paisagem chinesas hoje, fala-se
muito delas, admira-se muito sua atmosfera, o espaço, a onda, elas parecem
sempre de referências duras e precisas como uma pedra, são essas três obras que
me chamam a atenção e que mais me interessam. Eu as copio e me parece que elas
têm alguma coisa, ou mesmo muitas coisas em comum.
São essas as paisagens em
pinturas que me vêm primeiramente à memória.
{...}
Giacometti, Alberto. Écrits. Paris: Hermann
Éditeurs, 2007, PP.375-377.
25 março 2012
28 fevereiro 2012
21 fevereiro 2012
19 fevereiro 2012
Poesia
Arte Poética
“A Poesia não me pede
propriamente uma especialização, pois a sua arte é uma arte do ser. Também não
é tempo ou trabalho o que a poesia me
pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética,
nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais
funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que
eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque
da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui como uma túnica sem costura.
Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça.
Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta.
Pois a poesia é a minha
explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha
participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o
poema não fala de ma vida real, mas sim duma vida concreta: ângulo da janela,
ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos
rostos, silêncios, distância e brilho das estrelas, respiração da noite,
perfume de tília e do orégão.
É esta relação com o universo que
define o poema com o poema, como obra de criação poética. Quando há apenas
relação com uma matéria há apenas artesanato.
É o artesanato que pede especialização,
ciência, trabalho, tempo e uma estética. Todo poeta, todo artista é artesão de
uma linguagem. Mas o artesanato das artes poéticas não nasce de si mesmo, isto
é, da relação com uma matéria, como nas artes artesanais.
O artesanato das artes
poética nasce da própria poesia, à qual
está consubstancialmente unido. Se um poeta diz: “obscuro”, “amplo”, “ barco”, “pedra”, é porque estas
palavras nomeiam a sua visão do mundo, a sua ligação com as coisas. Não foram
escolhidas esteticamente pela sua beleza, foram escolhidas pela sua realidade,
pela sua necessidade, pelo seu poder poético de estabelecer uma aliança. E é da
obstinação sem tréguas que a poesia exige que nasce o “obstinado rigor” do
poema.
O verso é denso, tenso como um
arco, exatamente dito, porque os dias foram densos, tensos como arcos,
exactamente vividos.
O equilíbrio das palavras entre
si é o equilíbrio dos momentos entre si. E no quadro sensível do poema vejo
para onde vou, reconheço o meu caminho, o meu reino, a minha vida.”
Sophia de Mello Brekner Andresen.
(in: Geografia. Lisboa, Salamandra, 1990)
tela: Juracy Giovagnoli dos Santos
acrílico s/tela, 120cmx140cm
30 janeiro 2012
29 janeiro 2012
24 janeiro 2012
12 janeiro 2012
Ano Novo
As memórias
Acabei de abrir o meu diário, e
como sempre me deparo com uma ilustração que coloco na primeira página:- uma imagem
que para mim é indispensável para começar o ano. Uma ilustração de uma pintura
de Bonnard, que graças a essa possibilidade da internet, tornou-se tarefa
fácil. Tenho-a como um mascote, como alguns que carregam seus objetos de preferência. Esta em especial
sempre me aponta algum caminho.
Quando conheci o pintor PierreBonnard (1867-1947), pintor francês, que
pertenceu ao movimento Nabis, do grupo
pós-impressionista, lendo e estudando arte, foi uma
daquelas emoções que todo ser apaixonado senti
ao descobrir o seu amor à primeira vista. Ele é um dos pintores desta
fase , que ainda mais gosto. E, se tivesse que incluir, sem piscar, um trabalho
impressionista nas paredes da minha casa, seria o dele. Na realidade gostaria
de ter todos, grande pretensão a minha. Quando estou vendo alguma exposição, e consta
algum trabalho de Bonnard, sinto que o
dia está ganho. Meu olhar se abre para ver toda aquela atsmosfera de luz e cor,
de perder o fôlego de tanta beleza.
Sem dúvida, amo esse pintor, que
para mim é um gênio da pintura intimista. Além das cores e dos temas, sua alma
e amor pela pintura me emocionam. Ele pintava sua família, mulher e filhas, em
total intimidade. E que outro pintor trouxe essa possibilidade de beleza? Que soube ver com seu olhar amoroso, uma
simples cena, a dimensão da cor em arco-íris, dando a paisagem os seus mil tons
de pinceladas fluídas; uma janela se
transforma em mar, uma mesa em catedral,
há luz e sombra nos ladrilhos velhos e brancos de um banheiro. Tudo era
este cenário, que ele sabia como refletir no corpo inteiro de suas pinturas,
sua alma apaixonada.
Um pintor em estado puro, quase
um deslumbramento infantil. Seu jardim era sua casa: as mesas eram festas,
as toalhas, os vasos, apenas
complementos desta alegria. Seus personagens um domingo de sol radiante na
ponta de seu pincel.
Gosto de todas as suas pinturas, e
se pudesse ter todas elas, como já disse, não excitaria um minuto. E, há uma em
especial, que quando olho, sempre e sempre, lembro da minha infância. Destas
preferências que não se explica, como o ser que se escolhe para amar. A cena de uma tarde, onde os tons de vermelho –alaranjado
está impregnado em todo quadro, e uma menina olha para dentro, talvez brincando
com o seu gato sentado numa poltrona, e me faz lembrar dessas tardes de verão,
eu com o meu cão, brincando no quintal, e que vai até a janela, e se pendura no
parapeito, como equilibrista, esperando
o bolo assando no forno para tomar o seu lanche .
Sinto o odor desse ar de festa,
toda vez que vejo e revejo essa ilustração. Porque cada vez que olho é sempre a
primeira vez. E, as lembranças... porque vivemos destas memórias, elas nos
fortalecem. Elas nos proporcionam um sentido de identidade, arrastando dentro de nós uma estranha felicidade, que sabemos existir
somente dentro de nós, com a singularidade de uma verdade única,
intransferível. Sempre como um clima, um sentimento, um ar que se respira
desses instantes e permanecem eternos, e duram o que dura nos ecos deste
existir. E, esta felicidade que ainda
ressoa, e que de vez em quando me vem – continua magicamente vindo quando me
detenho sobre ela.
Sei que é um lugar de
estranhamento, que não pode ser nomeado, eu não consigo nomear, mas sentir,
porque cada vez que olho é sempre a primeira vez, e deste olhar surgem novas
inquietações.
Estou feliz. Penso: descubro essa
relação incompreensível entre pintura e emoção, uma estranha conexão entre o real
e o imaginário. Olho para essa tela, que acabei de colar no meu caderno de ano novo,
porque sempre a colo na primeira página, e estou ali e não quero perder a felicidade
que sinto ao lembrar . E, por isso escrevo, talvez para recuperar esta
sensação no ar, de uma pintura que me pertence sem a ter, e que viaja comigo.
Adiciono um site para ver imagens deste pintor:
08 janeiro 2012
26 novembro 2011
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