Juracy
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10-1-2013 17_45_27
Diário mínimo
Hoje, a frase do poeta Guimarães Rosa veio acompanhar meus pensamentos: " Viver é muito perigoso", uma frase simples e reveladora, que esbarra com pleno e certeiro significado, nas condições de existência desta nossa contemporaneidade: - época de intranqüilidade , de infindos distúrbios existenciais, de valores contraditórios , se assim podemos classificar esse tempo que se apresenta.
Viver é mesmo perigoso. A cada página do jornal, esfacelados de tragédias, vemos a boca escancarada desse tempo, onde estamos nos acostumando a ver e ouvir, com rapidez e sem resistência: -a violência, desemprego, fome, massacres, corrupções e morte, e tantas e tantas coisas mais.
Onde estamos????
Não posso ficar indiferente, ao desalento deste mundo.
E, nesta manhã , tenho o relato triste e melancólico da minha empregada, enquanto tomo café. Foi assaltada em sua casa, o dinheiro do aluguel desapareceu, seu filho desempregado deu uma surra na namorada, o marido a abandonou, sem meias palavras com uma vizinha. Ela Pediu um vale para cobrir o mês de aluguel, desesperada e com dor demais em seus olhos.
Assim caminhamos, assim caminha a humanidade. Caminha amedrontada, sem saída .
Ainda estou segurando a xícara do café, e sentindo um cansaço, um cansaço imenso de um grande sertão com diminutas veredas. E sou assim tomada por essa angústia, que se sabe imensa e se estende pela mesa, descobrindo gota a gota esse viver que é difícil.
Juracy
23 dezembro 2012
A memória Inconsolável
.
Hiroshima, meu amor
Direção: Alain Resnais
Filme Franco-japonês de 1959
Roteiro: Marguerite Duras
A memória Inconsolável
Um filme que além de
introduzir inovação e perspectiva inusitadas,
ao expor novas maneiras de fazer (forma ) e de ver (significado) no
cinema e na vida, nos fala desta memória inconsolável, na reflexão sobre o tempo e as lembranças.
Baseado em texto do nouveau
Roman francês de Marquerite Duras, pleno de nuances e aspectos que abrangem
desde o fio temático: - o bombardeio atômico de Hiroshima, a presença dos
personagens que estão revendo o passado,
nesta unidade de tempo, mesclado de memórias e cenas reais.
É um filme (de e) sobre a
memória e o tempo, tratado de maneira visceral e contemporânea. Falando de um relacionamento entre um homem e
uma mulher, na possibilidade de convivência, solidificando os liames entre dois
seres humanos, e o que os podem unir como premissa de um encontro real e
significativo. E, como notas musicais, quando submetidos ao toque e
pressão dos dedos do pianista, que nos graus desta variação e sutileza,
revelam suas partituras únicas e seus tons, e nós como expectadores, vamos saboreando, sem saber ao certo o que
transmitem, ora vagos e silenciosos, ora
intensos e dramáticos.
Todos os contatos, expressões,
diálogos, atitudes e posturas, pautam-se por estas sutis tonalidades e
variações, e como acorde musical, na sua leveza, flexibilidade e
imponderabilidade, que à semelhança do pensamento, dos sentimentos e das
emoções, não se concretizam, mas revelam em outro estado de ser, porque assim a
memória se faz.
Os tempos amorosos dos
personagens revelam-se através dessas sinfonias, onde a junção passado e
presente interagem, incorporam-se no agora dos sentimentos, onde as
perturbações psíquicas pretéritas são retomadas, neste lugar da memória onde o processamento
poético permeia-se de indagações e angustias do vivido.
A primeira frase que se fala no filme: “ Tu n’as rien vu, à
Hiroshima” (Você não viu nada em
Hiroshima), depois de minutos de imagens de um desenho abstrato de dois corpos
entrelaçados, por fusões e sublinhado por um tema musical, os duplos sentidos
entre frases e imagens se revelam. E nós, o que vemos em Hiroshima?
“Como você, lutei para manter
uma memória inconsolável”, diz a voz feminina. E depois de um vazio, continua:
“ E como você, eu esqueci”.
Memória e esquecimento são a
matéria que desfilam em nosso campo visual.
“L´oubli cmmencera por l’oeil”
( O esquecimento comecará pelo olho), nesse
processo interior, temos o processo criativo: imaginação e esquecimento, memória e
realidade; temas que se mesclam.
Tudo na película nasce do
diálogo destes amantes, e a linha dramática se desenvolve através da memória e
recordação. Deste modo, “a madrugada de amor em Hiroshima” é inseparável da”
madrugada de morte em Never”, no que
fica desta vivência entre espaço e
tempo, que ora se dissolvem ou ora se conectam.
O filme nos faz refletir sobre
a sensação imprecisa da existência, em termos de desejo, sensação e vivência,
do mundo real e do mundo dos sonhos e desejos; um mundo que se forma por
contradições, do passado e do presente, do concreto e abstrato.
Onde o tempo da memória se
faz? Esse é ao meu ver a indagação do filme. Onde o tempo, que não é busca
racional, mas poética, nas livres-associações produzidas pelas sensações,
lembranças, por um inconsciente que se manifesta e perfila o real. Somos a
construção destes paradigmas. Nas falas que se encadeiam como versos de um
poema, no ritmo de um poema. Não é o entendimento que interessa, mas a
expressão que fica; uma parte desse tempo de busca que se instala e se
dissolve, onde nada se explica, mas algo se constrói nas suas entrelinhas.
Resenha: Uma atriz vinda de
Paris para trabalhar numa fita em Hiroshima, tem uma aventura amorosa e revive,
através do amante japonês, a trágica experiência que tivera durante a ocupação
em Never, na França, com um amante alemão.
Juracy
.
17 dezembro 2012
Sob as imagens....
Francis Bacon
Pintor anglo-irlândes (1909-1992)

Francis Bacon admite que o artista está sempre atado a realidade, onde alerta: o tema, a realidade é sempre uma isca, tem-se de começar a partir de um tema, de um ponto, que gradualmente irá evaporar-se e deixar aquele resíduo que chamamos de realidade, e que talvez vagamente tenha a ver com o que nos serviu de ponto de partida"
O que temos diante do nós, daquilo que o artista transmite é sempre outra coisa, que já não é a realidade, nem a evocação, mas im o que o artista conseguiu fazer dela. Que é sempre alguma coisa (que toma o lugar da verdade) mas que não é a verdade que se afirma na narração desta construção.
A pintura desestabiliza, porque nos tira do lugar conhecido.
A realidade reinventada, desmontada no processo, para dar conta daquilo que se quiz dizer.
Onde as certezas vacilam - resiste na busca - na necessidade de se fazer imagem.
Uma imagem que não habita, onde ela é tecida no ato anterior ao ato.
04 dezembro 2012
20 novembro 2012
Cerejeiras em flor - filme da semana
Resenha:
Há filmes marcantes e outros que passam. A maioria deles são feitos para entreter, mas alguns são especiais, responsáveis por tocar, além dos olhos, a alma e o coração. Cerejeiras em flor é este filme que nos sensibiliza com sua poética.
A trama começa de forma dramática: - Trudi ( a magnífica Hannelore Elsner ) recebe a trágica noticia que seu marido Rudi ( Elmar Wepper), tem pouco tempo de vida. Aconselhada pelos médicos, ela o convence a sair da Bavária, vilarejo onde moram , para tirar férias e visitar os filhos em Berlim onde moram. O marido , apesar de sistemático e de poucas palavras, trabalhando num emprego burocrático e que não abre mão do seu cotidiano e rotina é convencido por ela a viajar.
Trudi omite dele o trágico destino e partem inicialmente para Berlim, reencontrando dois de seus filhos, sendo o caçula, morador no Japão, não poderia estar presente. Ambos, pais e filhos se vêem na constrangedora situação embaraçosa desse encontro, revelando o eterno conflito entre gerações ,e diante do tempo que extirpa as relações , tornando-se estranhos e diferentes em seus mundos.
Trudi e Rudi vão para a praia, também uma das paixões dela, e Trudi, a esposa, inesperadamente vem a falecer, deixando o marido Rudi sozinho.
Rudi volta para a Bavária, e revê os pertences de sua falecida, e descobre que a vida toda ela alimentou o sonho de conhecer o monte Fuji, no Japão, e assim recomeça sua jornada em reencontrar seu outro filho e em buscar o que sua mulher mais admirava: o butô.
E, no Japão , redescobre o prazer das pequenas coisas , com a ajuda de uma jovem dançarina de butô num cenário deslumbrante na primavera, época das cerejeiras.
O símbolo da flor de cerejeira nos remete a beleza do feminino e simboliza o amor, a felicidade e renovação. Flor de origem asiática, conhecida como "Sakura" é tida como a flor nacional do Japão, associada à efemeridade da existência humana e ao lema dos Samurais: viver o presente sem medo. E entre os temas relevante desta trajetória que o casal enfrenta , além da dor, cumplicidade e perdas, que sem meias palavras nos comove com o tema da velhice solidão e morte, temos a discussão sobre a finitude da vida e das várias armadilhas que criamos para não aproveitarmos com toda a plenitude os relacionamentos e o amor que nasce nesta cumplicidade.
Juracy
09 setembro 2012
02 setembro 2012
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