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25 fevereiro 2013

Filme : Jane Eyre



Jane Eyre

O filme criado por Cary Fukunaga mantém a originalidade do romance de Charlotte Brontë, escrito em 1847, dentro de sua atmosfera renascentista e  meio gótica, com Mia Wasikowka no papel de Jane Eyre, ao lado de Michael Fassbender, como o  dono do castelo e aristocrata  inglês.  O  diretor, numa versão modernista, nos apresenta sua  história através de flashbacks bem estruturados. As imagens são belíssimas, no retrato de uma época vitoriana, para uma jovem que busca sua emancipação no amor e na vida.
Depois de uma infância marcada de infortúnios, a órfã, Jane Eyre, desprezada por sua tia, é enviada a um rígido e severo orfanato. Aos dezoito anos ela se livra da tutela do colégio e consegue um emprego como tutora da filha de Rochester; com o tempo ambos  se apaixonam, e na cerimônia do casamento ela descobre que ele foi casado, com uma mulher que enlouqueceu e a mantém presa no castelo. Ela, impossibilitada de se casar, se afasta  e foge do conde, indo morar e trabalhar numa família de protestantes. Descobre ao longo do tempo que herdou dinheiro de um tio, e que seus anfitriões que a acolheram, são seus primos diretos, dando a eles parte da  recompensa de sua herança. Ele, o missionário e apaixonado por Jane, queria partir para uma missão na Índia e levá-lá como esposa, mesmo sabendo de sua paixão por Rochester. Ela hesita em partir com este primo e pretendente, e volta para o castelo. Vê Rochester e o encontra cego, depois de um incêndio provocado por sua esposa enlouquecida. Jane decide assim casar- se finalmente com ele.
Vemos na protagonista o seu espírito independente, que desde criança, aprende que a melhor maneira de manter o respeito próprio na adversidade é manter o autocontrole, e esta foi sua peregrinação ao longo de sua história, para quem a busca de verdade, justificou seu sofrimento, e soube preservar a experiência acima do humano ,  sabendo  lidar com os lados sombrios e perversos das pessoas ao seu redor, suas contradições e friezas, seus interesses escusos e falta de caráter.
Sofreu em sua busca de ser amada, e ao aproximar-se de Rochester disse: " é o meu espírito que fala ao seu", no desejo de eliminar entre eles as barreiras sociais, os impedimentos formais e a cerimônia entre gêneros, nesse sentimento amoroso de união e compartilhamento de almas.


A emancipação e o espirito independente são as marcas desta história que Charlotte Brontë, nos  fornece de sua época vitoriana, onde as mulheres viviam para a corte e o casamento, e Jane Eyre ao repudiar pretendentes e ser auto suficiente, mostra sua força e determinação. Uma heroína atemporal, ao travar sua luta interior e se manter fiel as suas convicções e a si própria, e se chocou os leitores dessa Inglaterra Vitoriana de mil e oitocentos , talvez ainda seja um tema em discussão em nossa época,  para mulheres que preservam pela igualdade e liberdade, ao mudar o rumo dos acontecimentos em busca  não apenas do amor verdadeiro, mas de sua verdade de alma,, que confronta as suas perdas na  intervenção do destino e das escolhas morais, para encontrar o seu próprio caminho.

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11 janeiro 2013

10-1-2013 17_45_27

  Diário mínimo

Hoje, a frase do poeta  Guimarães Rosa veio acompanhar meus pensamentos: " Viver é muito perigoso", uma frase simples e reveladora, que esbarra com pleno e certeiro significado,  nas condições de existência desta  nossa contemporaneidade: -  época de intranqüilidade , de infindos distúrbios existenciais, de valores contraditórios , se assim podemos classificar esse tempo que se apresenta.

Viver  é mesmo perigoso. A cada  página do jornal, esfacelados de tragédias,  vemos a boca escancarada desse tempo, onde estamos nos acostumando a ver e ouvir, com rapidez e sem resistência: -a violência, desemprego, fome, massacres, corrupções e morte,  e tantas e tantas coisas mais.
Onde estamos????
Não posso ficar indiferente, ao desalento deste mundo. 

E,  nesta manhã , tenho o relato triste e melancólico da minha empregada, enquanto tomo café. Foi assaltada em sua casa, o dinheiro do aluguel desapareceu, seu filho desempregado deu uma surra na namorada, o marido a abandonou, sem meias palavras com uma vizinha.  Ela Pediu um vale para cobrir o mês de aluguel, desesperada e com  dor demais em seus olhos. 

Assim caminhamos, assim caminha a humanidade. Caminha amedrontada, sem saída .
Ainda estou segurando a xícara do café,  e sentindo um cansaço, um cansaço imenso de um grande sertão com diminutas veredas. E sou assim tomada por essa angústia, que se sabe  imensa  e se estende pela mesa, descobrindo gota a gota esse viver que é difícil.

Juracy




23 dezembro 2012

A memória Inconsolável








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Hiroshima, meu amor

 

Direção:  Alain Resnais
Filme Franco-japonês de 1959
Roteiro:  Marguerite Duras

 

 

A memória Inconsolável

 

 

Um filme que além de introduzir inovação e perspectiva inusitadas,   ao expor novas maneiras de fazer (forma ) e de ver (significado) no cinema e na vida, nos fala desta memória inconsolável,  na  reflexão sobre o tempo e as lembranças.

 

Baseado em texto do nouveau Roman francês de Marquerite Duras, pleno de nuances e aspectos que abrangem desde o fio temático: - o bombardeio atômico de Hiroshima, a presença dos personagens  que estão revendo o passado, nesta unidade de tempo, mesclado de memórias e cenas reais.

 

É um filme (de e) sobre a memória e o tempo, tratado de maneira visceral e contemporânea.  Falando de um relacionamento entre um homem e uma mulher, na possibilidade de convivência, solidificando os liames entre dois seres humanos, e o que os podem unir como premissa de um encontro real e significativo. E, como notas musicais, quando submetidos ao toque e pressão  dos dedos do pianista,  que nos graus desta variação e sutileza, revelam suas partituras únicas e seus tons, e nós como expectadores,  vamos saboreando, sem saber ao certo o que transmitem, ora vagos e silenciosos,  ora intensos e dramáticos.

Todos os contatos, expressões, diálogos, atitudes e posturas, pautam-se por estas sutis tonalidades e variações, e como acorde musical, na sua leveza, flexibilidade e imponderabilidade, que à semelhança do pensamento, dos sentimentos e das emoções, não se concretizam, mas revelam em outro estado de ser, porque assim a memória se faz.

Os tempos amorosos dos personagens revelam-se através dessas sinfonias, onde a junção passado e presente interagem, incorporam-se no agora dos sentimentos, onde as perturbações psíquicas pretéritas são retomadas,  neste lugar da memória onde o processamento poético permeia-se de indagações e angustias do vivido.

 

A  primeira frase  que se fala no filme: “ Tu n’as rien vu, à Hiroshima”  (Você não viu nada em Hiroshima), depois de minutos de imagens de um desenho abstrato de dois corpos entrelaçados, por fusões e sublinhado por um tema musical, os duplos sentidos entre frases e imagens se revelam. E nós, o que vemos em Hiroshima?

 

“Como você, lutei para manter uma memória inconsolável”, diz a voz feminina. E depois de um vazio, continua: “ E como você, eu esqueci”.

 

Memória e esquecimento são a matéria que desfilam em nosso campo visual.

“L´oubli cmmencera por l’oeil” ( O esquecimento comecará pelo olho), nesse  processo interior, temos o processo criativo:  imaginação e esquecimento, memória e realidade;  temas que se mesclam.

 

Tudo na película nasce do diálogo destes amantes, e a linha dramática se desenvolve através da memória e recordação. Deste modo, “a madrugada de amor em Hiroshima” é inseparável da” madrugada de morte em Never”,  no que fica desta vivência  entre espaço e tempo, que ora se dissolvem ou ora se conectam.

 

O filme nos faz refletir sobre a sensação imprecisa da existência, em termos de desejo, sensação e vivência, do mundo real e do mundo dos sonhos e desejos; um mundo que se forma por contradições, do passado e do presente, do concreto e abstrato.

 

Onde o tempo da memória se faz? Esse é ao meu ver a indagação do filme. Onde o tempo, que não é busca racional, mas poética, nas livres-associações produzidas pelas sensações, lembranças, por um inconsciente que se manifesta e perfila o real. Somos a construção destes paradigmas. Nas falas que se encadeiam como versos de um poema, no ritmo de um poema. Não é o entendimento que interessa, mas a expressão que fica; uma parte desse tempo de busca que se instala e se dissolve, onde nada se explica, mas algo se constrói  nas suas entrelinhas.

 

 

 

Resenha: Uma atriz vinda de Paris para trabalhar numa fita em Hiroshima, tem uma aventura amorosa e revive, através do amante japonês, a trágica experiência que tivera durante a ocupação em Never, na França, com um amante alemão.

 

 

 

Juracy
 
 
 
 
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17 dezembro 2012

Sob as imagens....

Francis Bacon



Pintor anglo-irlândes (1909-1992)











Francis Bacon admite que o artista está sempre atado a realidade, onde alerta: o tema, a realidade é sempre uma isca, tem-se de começar a partir de um tema, de um ponto, que gradualmente irá evaporar-se e deixar aquele resíduo que chamamos de realidade, e que talvez vagamente tenha a ver com o que nos serviu de ponto de partida"




O que temos diante do nós, daquilo que o artista transmite é sempre outra coisa, que já não é a realidade, nem a evocação, mas im o que o artista conseguiu fazer dela. Que é sempre alguma coisa (que toma o lugar da verdade) mas que não é a verdade que se afirma na narração desta construção.

A pintura desestabiliza, porque nos tira do lugar conhecido. 

A realidade reinventada, desmontada no processo, para dar conta daquilo que se quiz dizer.

Onde as certezas vacilam - resiste na busca - na necessidade de se fazer imagem.

Uma imagem que não habita, onde ela é tecida no ato anterior ao ato.









  

20 novembro 2012

Cerejeiras em flor - filme da semana


Resenha:

Há filmes marcantes e outros que passam. A maioria deles são feitos para entreter, mas alguns são especiais, responsáveis por tocar, além dos olhos, a alma e o coração. Cerejeiras em flor é este filme que nos sensibiliza com sua poética.
A trama começa de forma dramática: - Trudi ( a magnífica Hannelore Elsner ) recebe a trágica noticia que seu marido Rudi ( Elmar Wepper), tem pouco tempo de vida. Aconselhada pelos médicos, ela o convence a sair da Bavária, vilarejo onde moram , para tirar férias e visitar os filhos em Berlim onde moram.  O marido ,  apesar de sistemático e de poucas palavras, trabalhando num emprego burocrático e que não abre mão  do seu  cotidiano e rotina é convencido por ela a viajar. 
Trudi omite dele o trágico destino e partem inicialmente para Berlim, reencontrando dois de seus filhos, sendo o caçula, morador no Japão, não poderia estar presente. Ambos, pais e filhos se vêem na constrangedora situação embaraçosa desse encontro, revelando o eterno conflito entre gerações ,e diante do tempo que extirpa as relações , tornando-se estranhos e diferentes em seus mundos.
Trudi e Rudi vão para a praia, também uma das paixões dela, e Trudi, a esposa, inesperadamente vem a falecer, deixando o marido Rudi  sozinho. 
Rudi volta para a Bavária, e revê os pertences de sua falecida, e descobre  que a vida toda ela  alimentou o sonho de conhecer o monte Fuji, no Japão, e assim recomeça sua jornada em reencontrar seu outro filho e em buscar o que sua mulher mais admirava: o butô. 
E,  no Japão , redescobre o prazer das pequenas coisas , com a ajuda de uma jovem dançarina de butô num cenário deslumbrante na primavera, época das cerejeiras.
O símbolo da flor de cerejeira nos remete a beleza do feminino  e simboliza o amor, a felicidade e renovação.  Flor de origem asiática, conhecida como "Sakura" é tida como a flor nacional do Japão, associada à efemeridade da existência humana e ao lema dos Samurais: viver o presente sem medo. E  entre os  temas relevante desta trajetória que o casal enfrenta , além da dor, cumplicidade e perdas,  que sem meias palavras nos comove com o tema da velhice solidão e morte,  temos a discussão sobre a finitude da vida e das várias armadilhas que criamos  para não aproveitarmos com toda a plenitude os relacionamentos e o amor que nasce nesta cumplicidade.

Juracy

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